Conversa Bruno Camilo Silva
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- Bruno, pode falar um pouco sobre a sua formação e o que o atraiu para o trabalho de história natural em Torres Vedras?
Muito bem, eu tenho um percurso um bocadinho diferente dos que é classicamente a formação de um paleontólogo, porque eu inicialmente estudei Arqueologia. Aliás, eu considero-me um Paleobiólogo. Só mais tarde eu fiz uma especialização em Evolução Humana, depois um mestrado em Paleobiologia, na Polónia, e comecei o doutoramento na Alemanha, em Bonn, e agora estou no Instituto Superior Técnico. Eu sou um torreense, nascido e criado, e desde muito novo sempre gostei da História Natural, da arqueologia pré-histórica, à Paleontologia e da Evolução em geral. Mas aquilo que me deu aquele impulsozinho foi quando eu passava férias com os meus pais na Praia da Consolação, em Peniche, em que havia uma praia em que só se conseguia estar na maré vazia , e então eu aproveitava para ver as fósseis na arriba aquando da maré cheia.
Havia sempre uma proximidade contextual com Santa Cruz, a Praia Azul e Cambelas. E foi aí que realmente comecei a desenvolver este gosto e até chegar e conseguir ser um profissional e trabalhar na área. E sou um dos fundadores da Sociedade Histórica Natural, que se dedica, aqui em Torres Vedras, à investigação e gestão de Património Paleontológico. Obviamente, também trabalhamos com outros municípios da zona oeste, pois temos a coleção mais expressiva do ponto de vista territorial do Jurássico de Portugal.
- O que significa viver numa paisagem onde existiam florestas de araucárias – a nível emocional, cultural e científico? Como é que esta consciência pode mudar a forma como nos relacionamos com este lugar hoje?
Estamos aqui na Serra do Socorro e da Archeira, num lugar muito especial: é aqui que se encontra um tronco fóssil de araucária. Um vestígio de florestas muito antigas, extraordinariamente belas, que existiram neste território há cerca de 135 milhões de anos.
Viver numa paisagem como esta, onde coexistem florestas atuais, florestas antropizadas (isto é, resultantes da atividade humana ao longo de milhares de anos) e a memória profunda de florestas cretácicas — levanta questões ecológicas, culturais e até pessoais. Que relação temos hoje com este lugar? E como é que essa consciência pode transformar a forma como nos relacionamos com a terra?
O papel do paleontólogo é reconstruir os ecossistemas do passado. Para nós, as florestas atuais são um instrumento fundamental: servem-nos como analogia para compreender o que existiu antes — e o passado ajuda-nos a interpretar o presente.
A geologia é o contexto onde os fósseis aparecem. Gosto de dizer que é como um livro: as camadas geológicas são as páginas, os fósseis são as palavras. Mas é um livro incompleto — faltam páginas, faltam palavras. Ainda assim, é graças à paleontologia que hoje sabemos que as alterações climáticas sempre existiram. Se não estudássemos o registo da vida ao longo do tempo profundo, não teríamos essa consciência.
Mesmo deixando de lado a ecologia atual, do ponto de vista científico, florestas bem conservadas como esta são ferramentas preciosas para compreender as dinâmicas ecológicas do passado.
Sabemos também o valor que estas florestas tiveram — e ainda têm — para as comunidades humanas. Até há relativamente pouco tempo, existia um equilíbrio entre a floresta em bom estado de conservação e as áreas utilizadas para agricultura, pastoreio e caça. As pessoas dependiam da floresta para alimento, para os animais domésticos, para a sobrevivência quotidiana. Esse equilíbrio perdeu-se nos últimos 80 ou 90 anos ( e mais longe que isso), e sabemos isso historicamente.
Estas florestas podem hoje ter um papel simbólico muito importante: mostrar às novas gerações como era o território no passado. Ajudar a preservar passa também por compreender a evolução da paisagem.
Muitos jovens gostam de “usufruir da natureza”, mas estão habituados a uma natureza muito organizada, muito domesticada — parques, espaços controlados. Aqui, neste lugar, coexistem várias camadas: um tronco fóssil com 135 milhões de anos, uma diversidade florestal autóctone ainda presente, zonas profundamente antropizadas e plantações de eucalipto. É fundamental perceber esta evolução da paisagem: o que mudou no último século, o que foi degradado, o que ainda resiste, o que faz parte da identidade do território.
Ouço muitas vezes os avós dizerem que iam ao mato apanhar ervas, frutos silvestres, pasto — como a erva de São Roberto. Isto ainda vive na memória das aldeias. E é aí que este trabalho ganha força: na identidade, na ligação entre passado profundo, memória viva e futuro possível.
- Esta antiga araucária não é apenas um fóssil – é uma testemunha de um tempo profundo. O que é que ela nos pode ensinar sobre a extinção, a sobrevivência e a longa memória dos ecossistemas?
Em primeiro lugar, é uma história de sobrevivência, porque este grupo de coníferas sobreviveu à extinção do Cretácico e manteve-se até hoje.
Geralmente com espécies diferentes, com uma distribuição geográfica diferente, mas o que elas nos contam da própria evolução do grupo é que, por exemplo, já eram árvores gigantescas na altura. Reparem, este vestígio que aqui está teria 18 metros de comprimento quando foi encontrado. É extremamente grande, mas aquilo que nós vemos é a parte interior do tronco, pois a parte exterior já se teria decomposto, antes de ter a possibilidade de entrar em processo de fossilização
Outras coisas que nós conseguimos ver, por exemplo, se formos fazer uma amostra e um corte fino o suficiente para permitir a luz passar e observar ao microscópio, podemos ver os anéis de crescimento e a organização da estrutura interna, porque é aquilo que permite dizer se é uma nova espécie ou se é uma espécie conhecida. Inclusive, podemos até encontrar restos de galerias de invertebrados, ou seja, animais que faziam no passado o mesmo que outros animais fazem na atualidade. Uma árvore morre, nós temos um ataque de fungos e temos invertebrados tais como vermes e insetos a alimentar-se. O que é que esses insetos estão a fazer? Estão a reciclar.
Portanto, provavelmente há animais diferentes, cumprindo as mesmas funções ecológicas, exatamente por analogia com animais que hoje em dia cumprem a mesma tarefa dentro do ecossistema. Por que é que ela está preservada? Porque ela, muito provavelmente, não vivia neste local. Nós sabemos pela geologia que aqui existia um sistema de rios com bastante energia. Este tronco foi transportado de algures e foi trazido pelo caudal de um rio e deixado aqui. Estas árvores não viviam dentro de rios.Portanto, é o tempo profundo, mas também é o espaço. Se nós quisermos fazer um estudo bastante detalhado, conseguimos saber de que direção é que ela teria vindo. Portanto, temos o tempo profundo e temos o espaço, temos aquilo que nós chamamos de paleobiogeografia
Porque encontramos muitos troncos, fragmentos de troncos, muitos, especialmente no Cretáceo, especialmente nesta zona? Porque muitos eram trazidos pelas correntes dos rios e aqui eram depositados e rapidamente cobertos de sedimentos. E isso é um fator de preservação. Portanto, novamente, é um fator de sobrevivência, não é de sobrevivência da espécie em si, é de sobrevivência enquanto exemplar de um ecossistema do passado. Eles testemunham também o momento da primeira grande diversificação das plantas com flores, que são angiospérmicas! Este troco fóssil é uma gimnosperma, portanto, na altura representava um velho mundo na evolução dos ecossistemas terrestres, que competia com um novo grupo de plantas, que hoje é maioritário nos nossos ecossistemas; as plantas com flores. Um mundo antigo conhece um novo mundo.
Até ao início do Cretáceo, não existiam plantas com flores, as angiospérmicas, vulgarmente conhecidas como plantas com flor. Portanto, elas surgem e as coníferas como o espécime da Cadriceira competem entre si. Aqui mesmo, na Cadriceira, no Catefica, é um dos melhores sítios do mundo para estudar a origem e a explosão das plantas com flor. odos os grandes grupos que existem atualmente já existiam nessa altura, já se tinham diversificado. As palmeiras, as gramíneas, a planta do amendoim, as roseiras, as magnólias, tudo isto, passados poucos milhões de anos de elas terem aparecido, já se tinham diversificado e já existiam entre diferentes famílias. É impressionante. Esta árvore assistiu à transformação dos ecossistemas terrestres em termos da flora para aquilo que nós temos hoje em dia. Foi o princípio. Portanto, é um testemunho do passado, que ela não tem em si, mas presenciou nesse momento, competiu pelos recursos também do passado.
- Esta árvore transformou-se em pedra ao longo de milhões de anos. O que é que esta transformação nos diz sobre a resiliência da natureza – e como é que ela se relaciona com as crises ambientais que enfrentamos atualmente?
Não é uma pergunta fácil de responder, porque são coisas completamente distintas. O processo de fossilização, ou o processo neste caso, o que é a silicificação, são partículas muito finas em que a matéria orgânica é substituída por sílica ao nível molecular. Portanto, isto tem a ver com fatores sedimentares. É claro que se tivesse existido um incêndio, nestes contextos provavelmente ela não chegaria até nós. Porque ia haver já uma alteração da própria estrutura orgânica, que poderia não facilitar o processo de substituição da matéria orgânica pelos minerais.
Por exemplo, nós temos troncos fossilizados no jurássico superior também silicificados, mas na maioria dos casos estes encontram-se preservados por incarbonização. Nalguns casos podem ser fruto de incêndios, noutros por compactação e pressão e/ou do tipo de ambiente com pouco oxigénio em que se depositaram. Portanto, diferentes tipos de ambientes de sedimentação contribuem com um fator exponencial para a probabilidade da fossilização e preservação, ou não.
De qualquer forma, aquilo que nós temos que compreender, num caso ou noutro, seja com plantas, seja com restos de vertebrados, é que nós falamos em património paleontológico, pois o espécime que observamos viveu num ambiente em que existiam milhares de exemplares da mesma ou diferentes espécies à volta. Só ele é que chegou até nós. Portanto, o que chega até nós é 0,001% da comunidade ecológica que viveu na altura. Portanto, é por isso que nós falamos de património paleontológico, mesmo para um dinossauro.
Nós podemos dizer que encontramos muitos dinossauros, por exemplo. A probabilidade de fossilização é que é bastante elevada, porque pode ser uma camada de 300 metros e essa camada só tem um dinossauro, mas ele viveu numa cadeia alimentar em que existiram, milhares de animais. Só um chega até nós, porque houve condições propicías para isso. Portanto, mais uma vez, o que chega até nós é um milagre da natureza. É um exceção, algo derivado da própria geologia, das condições que positivamente permitem essa preservação.
- Como a ciência e a arte podem se unir para ajudar as pessoas a se conectarem com essas florestas antigas – não apenas como fósseis, mas como inspiração viva para novas formas de ver e cuidar da terra?
Ajuda-me em várias coisas, pois um cientista tem que ser criativo. Necessitamos ser criativos. Às vezes, na formulação das questões que nós queremos ver respondidas, temos que saber o que é que queremos perguntar. Na hora da análise também temos que ter a mente criativa. E a arte é criativa, a arte é comunicação também, é sensibilização. Acho que pode haver várias formas da arte ajudar na divulgação, na dinamização, na sensibilização sobre os ecossistemas do passado e os ecossistemas presentes. Não sou a melhor pessoa para te responder, porque eu tenho sempre uma tendência em pensar como um cientista, por muito que eu tenha criatividade no objeto do estudo, da formulação, na parte da comunicação, nada melhor do que um artista para pensar a forma de como apresentar propostas e ver até onde nós conseguimos ir, como é que nós conseguimos estruturar o projeto de ligação à arte. Os cientistas não se preocupam muito na comunicação através da arte. Acho que isso é um desafio, quer para os cientistas, quer também para quem trabalha nas artes performativas, ou quem estabelece uma ligação entre as artes e a paisagem, ou as paisagens, não é? Mas é um desafio e é uma proposta bastante interessante. E acho que se podiam ver projetos piloto nesse sentido, acho que ia ser bastante divertido. Desse ponto de vista, estamos neste lugar onde o fóssil da araucária está ainda escondido e existem razões para isto. E imagina se algum dia conseguirmos revelar e criar aqui um espaço de visitação, porque agora já estamos no meio da floresta, uma floresta muito bonita…eu diria criar um espaço para as pessoas que poderiam contemplar e usufruir de vários pontos de vista: ecológico, espiritual, cultural.
- O que imaginas que pode acontecer aqui? O que é preciso para que isso aconteça de facto?
O que queria, o que imagino que pode acontecer aqui, o que precisamos para isto poderia acontecer mesmo? É assim, o projeto que nós temos para aqui assenta em duas fases. Uma é tentar redescobrir o fóssil, porque ele foi enterrado em 1983 porque ele estava a ser vandalizado. Portanto, aquilo que nós temos que fazer é perceber o estado de conservação dos danos provocados por essas ações de vandalismo. Se necessário, ter alguma ação de conservação e restauro, para que ele se mantenha em boas condições, fazer um modelo 3D, voltar a proteger com geotextil e areia, temporariamente, e então aí definirmos uma estratégia de expô-lo ao público. Tudo aparenta que ele está no sítio em que foi descoberto originalmente, portanto, nós podemos dizer que ele está in situ, não está ex situ. Quando as coisas estão in situ, é bom que permaneçam no local onde foram descobertas.
A solução para demonstrar à população passa essencialmente pela harmonia entre o vestígio e o enquadramento. Temos que pensar numa forma de conservação que evite mais ações de vandalismo, que possa ser usufruída pela comunidade, não só para ver o fóssil em si, mas lá está, para estar aqui num enquadramento. Nós temos aves maravilhosas aqui, temos diversidade de flora, insetos, portanto, que só valorizam o espaço em si. E no fundo, é um elemento com 135 milhões de anos, junto dos seus descendentes. Nós por acaso não temos aqui nenhuma araucária nestas zonas, mas há árvores, mas existem outras coníferas, como o pinheiro manso e bravo. Portanto, não haveria melhor forma de enquadramento do que a própria paisagem onde se insere.
É claro que há sempre as preocupações de novas ações de vandalismo, portanto, o projeto teria de assentar, como eu disse, neste equilíbrio entre a proteção do fóssil e o usufruto por parte da população. Às vezes não são coisas assim tão fáceis de se conseguirem, precisa-se de imaginação, criatividade, porque às vezes há soluções baratas que são bastante eficientes. Nós não precisamos gastar um milhão de euros para devolver à comunidade algo que faz parte da sua memória e da sua vivência. Não é só a paisagem atual, aquilo que nós temos hoje em dia, muitas pessoas idosas sabem como é que isto era, sabem no que se transformou, o que ainda tem a memória deste espécime. Portanto, é devolver novamente à comunidade algo que faz parte da própria cultura, da tradição oral, em muitos casos, porque há muitas pessoas que viram isto ser escavado, que já são mesmo muito idosas, ou já faleceram. Mas há tradição, continua a tradição oral e, portanto, toda a gente sabe que isto existe aqui. Portanto, é necessário devolver à comunidade algo que não só é um património, mas também auxiliar a dar esta emoção do tempo profundo. Acho que este é um momento importante para as pessoas perceberem que o planeta já tem muito tempo, muitas transformações ocorreram e que este espécime chegou até nós e merece ser vista e apreciada.
- O novo fóssil recentemente revelado continua a ser um mistério – mas que possibilidades ou questões desperta em si, como cientista e como habitante local? E outra pergunta também, quando temos este tipo de descoberta e quando está a começar a estudar fóssil deste, que tipo de questões ou padrões está a procurar? E como elas podem ajudar a juntar à história antiga das florestas?
Todos os achados são importantes para perceber a geobiodiversidade. Pode eventualmente ser uma espécie semelhante a esta, ou ser uma espécie completamente diferente. O estudo destes troncos, deste tipo de material, ao contrário das impressões das folhas, que são relativamente diagnósticas, há a necessidade de retirar uma pequena parte dele e vê-lo no microscópio. Porque a organização, a estrutura vascular da árvore, essa organização é que nos diz acerca dos grupos a que pertencem. Portanto, quanto mais informação nós tivermos, mais percebemos da sua paleobiologia. Obviamente há estruturas facilmente reconhecidas da sua anatomia. E temos um exemplar aqui no centro de interpretação da paisagem protegida, em que temos um nó do tronco, onde houve um ramo. Há vários aspectos da morfologia geral do exterior do fóssil, que nos dão uma ideia de como é que seria em vida.
Outro aspecto também muito importante, que eu já tinha mencionado antes, é, por exemplo, nós vermos se há marcas de insetos ou outros invertebrados, às vezes até pupas de insetos, larvas, que se alimentavam dos troncos em decomposição. É comportamento fossilizado. Aquela árvore, nem que seja um pequeno fragmento, pode mostrar-nos a atividade de organismos que não sobreviveram, porque são invertebrados, portanto não têm tecidos duros, são tecidos moles que se decompuseram, mas que nos dão uma ideia do comportamento desse animal enquanto aquele vestígio lhe serviu de suporte de vida. Portanto, é comportamento fossilizado também. Às vezes nós pensamos, ah, é um tronco, só o tronco por si. Não, há muita informação que se pode tirar dali. Às vezes até pode haver situações em que há preservado restos de âmbar, a seiva dessas mesmas árvores. Não quer dizer que tenham lá insetos dentro, obviamente.
Uma coisa que eu também não tinha referido é que onde encontrarmos estes troncos da árvore aqui no Cretáceo desta zona, não conseguimos encontrar ossos de dinossauro, por uma simples razão: Os sedimentos depositados pelos rios naquele período e aqui nesta zona tornaram-se muito ácidos com o passar do tempo e dada a sua natureza muito siliclástica, e que se depositaram muito rapidamente num contexto de elevada energia fluvial.. Qualquer osso ou qualquer animal que tenha morrido no leito desses rios sofreu quase um efeito de máquina de lavar (ficariam desgastados muito rápidamente) e, portanto, os ossos não chegaram até nós. Mesmo sobrevivendo alguns ossos, a acidez dos sedimentos levou à sua dissolução ao longo do tempo geológico. Às vezes encontramos, sim, alguns bivalves e material lenhoso, que são os troncos fósseis.